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Artigo: Novo nascimento e afeições santas

Muitos homens são tocados e comovidos pela pregação do Evangelho a viverem como verdadeiros discípulos de Cristo. Por muitas vezes estes homens se mostram de uma forma ou de outra comprometidos com a Palavra de Deus e o seu Reino.

Porém, mesmo dentre estes que supostamente foram tocados pelo Espírito Santo e que se comprometeram a viver para o Reino, pode-se observar muitas vezes em sua jornada de vida toda sorte de escândalos que chocam uma sociedade inteira.

Dentre as várias consequências que poderiam ser citadas aqui, uma delas é o desassossego entre o povo de Deus de forma geral. A mente muitas vezes passa a ficar perturbada sem saber onde firmar os pés, nem o que fazer. E com isso, muitos são induzidos a duvidar de que o evangelho valha mesmo a pena, e portanto, a mentira, a heresia, a infidelidade e o ateísmo prevalecem.

Um indivíduo que se acha no meio do povo de Deus, pode muitas vezes expressar afeições religiosas sem realmente ter nascido pelo Espírito. Mas isso não significa que este suposto novo nascimento foi ineficaz para salvar, ou que tenha sido incompleto, mas nos mostra a evidencia de que simplesmente nunca houve o novo nascimento.

Meu objetivo portanto, neste artigo foi falar sobre o pecado, o novo nascimento, e também sobre a verdadeira e falsa afeição da graça, assim como busquei distingui-la uma da outra com base no livro Afeições Religiosas de Jonathan Edwards.

Em breve irei deter algumas linhas deste artigo para falar sobre o novo nascimento operado pelo Espírito Santo. Porém, antes de falar sobre o novo nascimento, precisamos falar sobre o que é o pecado e entender a situação moral e espiritual no homem, pois aí sim compreenderemos melhor o que é o novo nascimento e a sua real importância.

De acordo com a Bíblia[1], o primeiro pecado entrou no mundo através de um único homem, Adão:

Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram[2] (RA).

Dessa forma, todos os homens se encontram em um verdadeiro estado de pecado e espiritualmente afastados de Deus. Em Romanos 3:23 Paulo disse que “todos pecaram e carecem da glória de Deus”.

De acordo com o apóstolo João em sua primeira epístola “todo aquele que pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a transgressão da lei” (1Jo 3.4).

O Catecismo Maior de Westminster define o pecado como:

...Toda falta de conformidade com a lei de Deus, ou a transgressão de qualquer lei por ele dada como regra à criatura racional[3] ([Westminster] 2013).

Ainda de acordo com o Catecismo, a queda trouxe sobre o gênero humano:

...A perda da comunhão com Deus, o seu desagrado e maldição; de modo que somos, por natureza, filhos da ira, escravos de Satanás e justamente expostos a todas as punições, neste mundo e no vindouro[4] ([Westminster] 2013).

As punições do pecado neste mundo seriam interiores e exteriores, o Catecismo comenta:

As punições do pecado neste mundo são: ou interiores, como cegueira do entendimento, sentimentos depravados, fortes ilusões, dureza de coração, remorso na consciência e afetos baixos; ou exteriores, como a maldição de Deus sobre as criaturas por nossa causa, e todos os outros males que caem sobre nós, em nosso corpo, nossos bens, relações e empregos – juntamente com a morte[5] ([Westminster] 2013).

Calvino comentando sobre a natureza humana e do conhecimento de nós mesmos, diz que:

Por mais que o homem tenha em si deslumbrante aparência de santidade, isso nada é senão hipocrisia e até mesmo abominação aos olhos de Deus, já que os pensamentos da mente, sempre depravados e corrompidos, armam emboscada[6] (Calvino 2018).

Esta, portanto, é a situação, moral e espiritual do homem, afastado de Deus e corrompido em seus próprios desejos e pensamentos assim como em sua relação com o seu próximo. E por isso merecemos o juízo de morte eterna:

Ora, visto que Deus justamente vinga os crimes, devemos reconhecer que estamos sujeitos à maldição e merecemos o juízo da morte eterna. Aliás, entre nós, não há sequer um com vontade ou capacidade de cumprir com seu dever[7] (Calvino 2018).

Definido de forma breve o que seria o pecado e da situação moral e espiritual a qual se encontra o homem, voltemos ao que seria portanto o novo nascimento.

O novo nascimento seria uma volta desta vida de degradação moral e espiritual definidos nas linhas acima, para uma vida em santificação em Deus. Não por méritos ou justiça própria, mas pela ação do Espírito Santo na vida do homem.

O Evangelho de João 3:5 registra a conversa de Jesus com Nicodemos sobre a necessidade de um novo nascimento para participar do Reino de Deus. Segundo as palavras de Jesus “quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus”.

De acordo com estas palavras de Jesus, o novo nascimento seria, portanto, uma mudança de estilo de vida operada pela ação poderosa do Espírito Santo na vida do homem de forma e maneira eficaz que o habilita a ser cidadão do Reino dos céus.

A regeneração ou novo nascimento é o arrependimento que conduz à vida. O Catecismo Maior de Westminster diz:

O arrependimento que conduz à vida é uma graça salvadora, operada no coração do pecador pelo Espírito e pela Palavra de Deus, pela qual, ao reconhecer e sentir, não somente o perigo, mas também a torpeza e odiosidade dos seus pecados, e apreendendo a misericórdia de Deus em Cristo para com os arrependimentos, o pecador tanto se entristece pelos seus pecados e os abomina, que os abandona e se volta para Deus, com a intenção de andar constantemente com Deus em todos os caminhos da nova obediência, e esforçando-se para isso[8] ([Westminster] 2013).

O novo nascimento seria a misericórdia de Deus na vida do homem pecador. Calvino, comentando sobre a misericórdia de Deus diz que, de fato e antes de tudo:

Nosso misericordioso Senhor nos recebeu bondosamente na graça segundo sua própria bondade e vontade graciosamente outorgada, perdoando e se condoendo de nossos pecados, os quais mereciam ira e morte eterna (Romanos 5.11; 6.22). Então, por meio dos dons de seu Espírito Santo, ele habita e reina em nós e, através desse, as concupiscências de nossa carne são, dia após dia, cada vez mais mortificadas. Deveras somos santificados, ou seja, consagrados ao Senhor em completa pureza de vida, nossos corações moldados para obediência à lei, de modo que nosso único desejo é fazer sua vontade e procurar por todos os meios sua glória, ao mesmo tempo odiando tudo aquilo que em nossa carne é mau e sórdido[9] (Calvino 2018).

Definido o que é o pecado, a conversão e o novo nascimento, voltemos a nossa atenção para a questão inicial, sobre os escândalos que muitas vezes se encontram no meio do povo de Deus e que muitas vezes traz um forte desassossego para a mente dos santos.

Pode um não regenerado viver como se fosse um salvo? Pode um pecador viver como se estivesse nascido de novo e expressar afeições religiosas supostamente genuínas? Evidentemente que sim!

De acordo com o evangelho de Mateus 7:15 Jesus nos chama a atenção para os falsos profetas que “se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores”.

Tais indivíduos, chegam até mesmo a confessar que Jesus é o Senhor, mas tais não entrariam no Reino dos céus. Jesus mesmo disse:

Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus[10] (RA).

Quando Jesus diz “aquele que faz”, a ideia aqui é de uma vida inteira em conformidade com a vontade e a lei de Deus.

Jesus diz mais que, naquele grande dia, tais indivíduos se surpreenderiam:

Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres?[11] (RA).

Apesar de ser uma resposta dura, Jesus disse de forma incisiva “...nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade” (Mt 7:23).

Estas pessoas, aparentemente tiveram uma vida religiosa, sem contudo serem conhecidas de Jesus e viveram sua vida na completa iniquidade.

Diante destas assertivas definidas, talvez poderia ficar algumas questões em nossa consciência como por exemplo: As afeições religiosas seria importante? Como distinguir a falsa da verdadeira? Como saber se sou nascido de novo ou se vivo uma falsa afeição religiosa?

Tentarei responder de forma sucinta algumas dessas questões com base naquilo o que já produziu Jonathan Edwards. Caso deseje se aprofundar no assunto, você pode, obviamente, adquirir o seu livro Afeições Religiosas publicado pela editora Vida Nova, 2018.

As afeições religiosas são importantes? Edwards considera um erro daqueles que descartam as afeições religiosas:

Dos que são favoráveis a descartar todas a afeições religiosas, como se nelas não houvesse nada de sólido ou substancial... Existem afeições verdadeiras e afeições falsas. Ter muitas afeições não é prova de ter a religião verdadeira, mas não ter afeição alguma é prova de não ter nem um pouco de religião verdadeira. O certo não é rejeitar todas as afeções tampouco aprovar todas elas, mas saber distingui-las, aprovando algumas e rejeitando outras, separando a palha do trigo, a escória do ouro e o preciosos do abominável[12] (Edwards 2018).

Evidentemente as afeições são importantes e não podemos rotulá-las todas indistintamente como sendo verdadeira ou falsa. Mas como podemos distingui-las?

Devemos, antes de tudo, distingui-las com base nas Escrituras e nos frutos que são produzidos de tais afeições.

Longe de querer “determinar categoricamente quais dentre seus conhecidos professam a fé com sinceridade e quais são hipócritas” (Edwards 2018), Edwards entende que alguns sinais podem ser encontrados na Palavra: 

Afeições verdadeiramente espirituais e cheias da graça nascem das influências e operações espirituais, sobrenaturais e divinas no coração: O Espírito de Deus dá prova infundindo e espalhando no coração o amor de Deus, o espírito de filho; e o nosso espírito, ou nossa consciência, recebe e declara esse testemunho para o nosso regozijo (1Co 2.14,15; Rm 8.1,6,13,16; Cl 1.9; Ef 1.3;).[13] 

As afeições da graça nascem da mente iluminada rica e espiritualmente para entender e perceber as coisas divinas: Quando a verdadeira beleza e atratividade da santidade ou o verdadeiro bem moral das coisas divinas se revela à alma, é como se um mundo novo se abrisse para sua compreensão. Revela-se a glória de todas as perfeições de Deus e de tudo que diz respeito ao Ser divino, pois, como observamos antes, a beleza de tudo provém da perfeição moral de Deus. (Jo 17.13,21; Fp 1.9; 1Jo 4.7; Rm 8.10; 10.2; Cl 3.10; Sl 43.3; Lc11.52; Mt 11.27; 2Co 2.13,14; 4.6; Ef 3.17-19; 2Pe 1.4;).[14]

As afeições verdadeiramente oriundas da graça são acompanhadas de sensata convicção espiritual e juízo, da realidade e da certeza das coisas divinas: Todas as pessoas verdadeiramente dotadas da graça têm a convicção firme, plena, cabal e eficaz da verdade das coisas grandiosas do evangelho. A convicção delas é eficaz, de modo que as coisas invisíveis, espirituais, misteriosas e excelentes do evangelho têm sobre elas influências de coisas reais e certas; no coração delas, as verdades do evangelho têm o peso e o poder de coisas reais e, por conseguinte, regem suas afeições e as governam por toda a vida. Seguro de que é um filho de Deus e de que Deus lhe prometeu o céu, talvez aparente ser forte na fé dessa realidade e ser muito rígido contra a infidelidade que o nega. (Mt 16.15-17; Jo 6.68,69; 17.6-8; At 8.37; 2Co 4.11-14; 5.1-8; 2Tm 1.12; Hb 11.1; 1Jo 4.13-16; 5.4,5).[15] P. 208,226.

E por fim, como saber se vivo uma falsa ou verdadeira afeição religiosa? Voltemos as palavras de Edwards: 

Outro ponto em que as afeições da graça se distinguem das outras é o serem acompanhadas de mudanças de natureza: As representações bíblicas da conversão indicam fortemente e simbolizam a mudança de natureza por meio das ideias de “ser nascido de novo; vir a ser nova criatura; ressuscitar dos mortos; ser transformado pela renovação da mente; morrer para o pecado e viver para a justiça; despir-se do velho homem e revestir-se de novo; ser enxertado num novo tronco; ter a semente divina plantada no coração; ser feito participante da natureza divina” – entre outras transformações. Portanto, se não houver nenhuma mudança permanente e notável na pessoa que acredita ter passado por uma obra de conversão, inúteis são suas pretensões, por mais que tenha sido afetada. A conversão é uma mudança tremenda e total do homem, ela o faz virar as costas para o pecado e se voltar para Deus. Antes de se converter, alguém pode conter-se para não pecar. Porém, quando se converte, ele não só se contém em relação ao pecado, mas tem o coração e a natureza afastados dele e voltados para a santidade, de modo que, daí em diante se torna uma pessoa santa e inimiga do pecado. Se depois das elevadas afeições se sua suposta conversão, por conseguinte, em breve tempo não houver nesse indivíduo nenhuma alteração sensata e notável no que diz respeito às más qualidades e aos maus hábitos outrora tão visíveis, e ele ainda permanecer normalmente sob o jugo das mesmas disposições de antes e com os mesmos traços de caráter, se continuar sendo egoísta, carnal, estúpido, perverso, descortês e desonroso com sempre foi, tudo isso será prova muito maior contra ele do que a mais brilhante história de experiência já contada poderia testemunhar em seu favor. Se durante algum tempo o indivíduo mostrar uma grande alteração, mas esta não durar, e afinal ele voltar declaradamente a ser tal qual era antes, conclui-se que não houve mudança de natureza, porque natureza é coisa permanente. Com efeito, é preciso levar em conta a índole natural, pois ela não é de todo erradicada pela conversão. A pessoa talvez ainda seja inclinada a cair nos pecados em que mais antes caía antes de se converter, por causa de sua constituição natural. Ainda assim a conversão realizará notável mudança, mesmo em relação a esses pecados. Conquanto a graça ainda imperfeita não erradique a má índole natural, ela tem muito poder eficácia sobre ele e pode corrigi-lo. A mudança operada na conversão é total. (Jo 4.14; 7.38,39; Rm 12.1,2; 2Co 3.18; Ef 1.1,16; 2.22; 4.22-24; At 4.13).[16] 

As afeições santas e cheias da graça têm ação e frutos na prática cristã; isto é, têm sobre o crente que as vive influência e poder capazes de fazê-lo adotar, como prática e profissão de vida, uma conduta absolutamente harmoniosa com as normas cristãs e por ela regida: Isso tem três implicações:[17]

(1) Que sua conduta ou prática no mundo seja absolutamente conforma às normas cristãs e por elas regidas. Para ter de fato a conduta conforme o evangelho, é preciso também que o homem seja digno, religioso, devoto, humilde, manso, dado ao perdão, pacífico, respeitoso, magnânimo, benevolente, misericordioso e bondoso em atos e palavras (Jo 15.14; Mt 5.29,30; 1Jo 3.3ss.; 5.18).

(2) Que os crentes se dediquem a essa prática acima de tudo o mais, ou seja, essa prática deve ser o principal empenho do crente, aquilo o que mais se devota, que busca com a máxima veemência e diligência – de tal modo que se diga que a prática da religião é sua conduta e ocupação por excelência. Todo verdadeiro cristão é um bom e fiel soldado de Jesus Cristo e combate o bom combate da fé; pois somente assim obtém a vida eterna. O reino do céu se conquista à força. Sem dedicação, não há como avançar no caminho estreito que conduz à vida e, portanto, não há como chegar à felicidade e à vida gloriosa a que esse caminho conduz. Sem trabalho árduo, não há como escalar a íngreme e altaneira colina de Sião; e não há como chegar à cidade celestial que coroa. Sem labor constante, não há como nadar contra a corrente para chegar à fonte da água da vida onde nasce essa corrente. É necessário vigiar e orar sempre e afim de escapar às coisas terríveis que acontecerão aos ímpios e para sermos considerados dignos de estar na presença do Filho do Homem (Tt 2.14; Fp 3.13; Mt 25.26-28; Hb 6.11,12 12.1).

(3) Que o crente persista nessa prática até o fim da vida, de modo que se possa dizer que ela não é sua ocupação somente em certas ocasiões, no dia de descanso semanal ou em épocas extraordinárias, nem que seja sua ocupação de um mês, um ano ou sete anos, ou somente em determinadas circunstâncias – mas que seja a ocupação de sua vida, a ocupação em que ele persevera em todos os seus estados e debaixo de toda e qualquer provação enquanto aqui viver. Todo verdadeiro cristão persevera nesse caminho de total obediência e serviço diligente e dedicado a Deus até o fim da vida, em meios às diversas tribulações que lhe sobrevêm. Os santos verdadeiros podem até ser culpados de alguns tipos e graus de reincidência no erro, ser frustrados por determinadas tentações e cair em pecado, até mesmo em grandes pecados, mas nunca podem cair a ponto de se cansarem da religião e do serviço de Deus e passar a detestá-los e negligenciá-los como hábito, quer por si mesmos, quer pelas dificuldades próprias dessas circunstâncias, conforme deixam claro os textos de (Gl 6.9; Rm 2.7; Hb 10.36; Is 43.22; Ml 1.13). Os santos não podem jamais retroceder e reincidir no erro a ponto e abandonarem o caminho da obediência total ou de deixarem de observar todas as leis do cristianismo e cumprir todos os deveres que deles se exigem, inclusive os mais difíceis e nas mais difíceis circunstâncias. Por sua vez, os que caem e abandonam expressamente esse proceder mostram que jamais ressuscitaram com Cristo.(Sl 110.3; Mt 12.43-45; Lc 1.74,75; 1Co 2.4; 4.20; 2Co 5.15; Tt 2.14; 1Ts 1.5; Ef 1.4; 2.10; Hb 9.14; Cl 1.21,22; 1Pe 1.18).

Dito estas coisas, como lidamos com o problema dos escândalos que muitas vezes assombram o povo de Deus? Quero responder esta questão fazendo alusão ao pensamento de Edwards:

Se, porém, enveredarmos pelo caminho de examinar sobretudo o que Cristo, os apóstolos e os profetas mais veemente e reiteradamente disseram e de avaliar a nós mesmos e aos outros sobretudo pelas ações e os efeitos práticos da graça, sem negligenciar outros elementos, isso trará múltiplas consequências felizes... Um número imenso de escândalos que mancham o nome desta religião de experiência e poder deixariam de existir; e a religião seria declarada e manifestada de tal modo que, em vez de endurecer o coração dos espectadores e promover a infidelidade e o ateísmo, costumaria acima de tudo convencer os homens da importância e da excelência dos cristianismo. Assim, a luz dos que professam a fé brilharia diante dos homens de modo tal que estes, vendo as boas obras, dariam glória a seu Pai que está nos céus[18] (Edwards 2018).

Em suma, todos os homens são pecadores e merecem a condenação por seus pecados. No entanto, por sua imensa graça e misericórdia, Deus justifica alguns homens com base no sacrifício vicário de Cristo. E uma mudança de vida consequentemente acontece. Esta mudança de vida, comumente chamamos de novo nascimento.

As afeições verdadeiramente espirituais nascem das influências e operações espirituais, sobrenaturais e divinas no coração, assim como as afeições da graça nascem da mente iluminada rica e espiritualmente para entender e perceber as coisas divinas baseadas nas Escrituras Sagradas.

Evidentemente minhas objeções com base em Jonathan Edwards não são de todas perfeitas, porém, para sabermos se nascemos de novo pela operação do Espírito Santo, e não simplesmente exteriormente ou pelos caprichos da religiosidade, devemos observar os frutos que acompanham essas afeições. Pois as afeições verdadeiramente oriundas da graça são acompanhadas de sensata convicção espiritual e juízo, da realidade e da certeza das coisas divinas. Mesmo que ainda haja dúvidas, outro ponto em que as afeições da graça se distinguem das outras é o serem acompanhadas de mudanças de natureza. A mudança de mente e coração proporcionadas pelo novo nascimento tem suas consequências em ações. As afeições santas e cheias da graça têm ação e frutos na prática cristã, ou seja, têm sobre o crente que as vive influência e poder capazes de fazê-lo adotar, como prática e profissão de vida, uma conduta absolutamente harmoniosa com as normas cristãs e por ela regida não apenas no início ou no meio, mas até o fim de sua vida.

A Deus, o Todo-Poderoso seja dada a glória e o poder para sempre. E que mediante seu Santo Espírito confirme em nossos corações o seu chamado divino. Amém! 

Autor: John H S Fidelis: Casado, pai de três filhos. Membro da IPB. Bacharelando em Teologia. Host do Podcast Teologicamente.


[1] Todas as passagens citadas neste Artigo correspondem a versão Revista e Atualizada traduzida por João Ferreira de Almeida.

[2] Romanos 5.12.

[3] CMW. O que é o pecado? p.31.

[4] CMW. Qual é a miséria que a queda trouxe sobre o gênero humano? p.33.

[5] CMW. Quais são as punições do pecado neste mundo? p.34.

[6] CALVINO, JOÃO. Do conhecimento do homem, p.55.

[7] CALVINO, JOÃO. Merecemos o juízo da morte eterna, pp.55,56.

[8] CMW. O que é o arrependimento que conduz à vida? p.82.

[9] CALVINO, JOÃO. A misericórdia de Deus, p.97.

[10] Mateus 7.21.

[11] Mateus 7.22.

[12] EDWARDS, JONATHAN. Sobre a natureza das afeições e sua importância na religião, pp.42,44.

[13] EDWARDS, JONATHAN. Apresentam-se os sinais característicos das afeições genuinamente santas e cheias da graça, p.158.

[14] IBDEM, p.191.

[15] IBDEM, pp.208,226.

[16] IBDEM, pp.254,255.

[17] IBDEM, pp.293,294,295,296,297,298.

[18] IBDEM, p.361. 

Bibliografia

[Westminster], O Catecismo Maior. O Catecismo Maior/Assembleia de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2013.

Bíblia Sagrada. Traduzida por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. Bíblia Sagrada. 2ª. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.

Calvino, João. Institutas da Religião cristã. São José dos Campos, SP: Fiel, 2018.

Edwards, Jonathan. Afeições religiosas. São Paulo: Vida Nova, 2018. 





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